não sou de anotar datas. aniversários alguns decoro fácilmente outros por mais próximas que me sejam as pessoas levo anos a atinar, a inventar jogos mentais para me lembrar. porque de facto gosto da parabenizar as pessoas. às vezes saltam-se à minha frente em exclamações diversas - mas eu gosto de saber sem nenhuma agenda me lembrar. eu lembro-me das pessoas vários dias, meses por ano, acho esse tipo de melindrice uma idiotice (lamento...) ~
reparei agora na data do post anterior -> 5 de novembro. faz hoje 21 anos que o meu verdadeiro pai se foi... são já mais os anos sem ele que com ele. e é a sua lembrança, agora que a dor da perda já passou que me faz sorrir. o carrito que me queria comprar (ainda eu nem tinha carta! e o dinheiro era pouco lá por casa), as sandes que me levava ao trabalho a meio da tarde, a nossa cumplicidade que só nós sabemos... as saudades continuam e são várias as vezes que desato num choro desgraçado mas que me alivia (não é agora o caso :)
hoje faz anos que morreu o meu avô. impossível esquecer.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
mandar conversa fora
caminhar perto do mar já é de facto algo que faço com alguma frequência - às vezes falho ao plano das 3x por semana, mas já não falho como dantes. não me tem apetecido correr, apenas caminhar a passo acelerado. gosto de me cruzar com pessoas que encontro muitas vezes e ver outras caras novas. hoje eram muitas mais do que é costume, o sol leva as pessoas a sairem de casa. também gosto daqueles dias mais nublados daqueles que só os mais afoitos se dignam a ir ~ aprecio o estado do mar, que sendo habitualmente calmo me surpreende com as suas voltas e reviravoltas. por estes dias aguardo que ele se manifeste com toda a sua força e sorrio para mim mesma sempre que passo no sítio onde em tempos levei com os salpicos fortes de uma onda mais atrevida (que susto!).
de resto tenho fé que seja este ano que consigo fazer com as minhas mãozinhas os presentes de Natal que tenho em mente. ao trabalho! ~
xô ! :)
de resto tenho fé que seja este ano que consigo fazer com as minhas mãozinhas os presentes de Natal que tenho em mente. ao trabalho! ~
xô ! :)
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
mas é bom, é bom! é positivo
o meu mais velho recebeu a alta do acidente escolar que lhe lesionou o dedo anelar direito. já pode praticar desporto sem restrições. defender os golos todos que queiram marcar na baliza dele. e hoje achei-o estranho comigo! já não quer saber dos meus beijos...
enfim, e aos poucos eles ganham autonomia e é menos um assunto para eu partilhar com o mundo*. é isso.
enfim, e aos poucos eles ganham autonomia e é menos um assunto para eu partilhar com o mundo*. é isso.
fim de semana em Cabeço de Vide :: aniversário da avó
muitos mimos, muito passeio, muitas fotografias, muita leitura, muito sol, muito sossego. e que nos seja possível repetir por muitos e bons anos *****
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
e sai mais uma camisola !
no início de setembro inscrevi-me numas aulas de costura. tentei fazer por mim, comprei revistas Burda com os moldes, mas não deu! sózinha é muito complicado. e além disso com a aula semanal vejo-me obrigada a decidir o que quero aprender a fazer. este mês andei nas camisolas. completei duas e a terceira não me saiu bem como queria, preciso inventar ali qualquer coisa para lhe dar outra vida...
estou a gostar muito, somos poucas, o ambiente é descontraído, tipo um encontro semanal em que nos juntamos para costurar o que quisermos, sempre com ajuda da professora. muito bom!
estou a gostar muito, somos poucas, o ambiente é descontraído, tipo um encontro semanal em que nos juntamos para costurar o que quisermos, sempre com ajuda da professora. muito bom!
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
das aulas de costura :: a minha primeira camisola
e de um vestido muito antigo, mas com um tecido e padrão que gosto fiz uma camisola, assim muito rústica, mas para primeira parece-me bem :)
todas as quartas (ou quintas de manhã) espreito a coluna do Ivan
A arte de esquecer
Pôr os sentimentos de lado é permitir que a vida prossiga
O livro mais triste que conheço sobre o amor se chama O legado de Eszter, do húngaro Sándor Márai. Quando o li, tive a sensação de que minha vida, como a da personagem, seria destruída pela esperança de um romance irrecuperável. Eszter espera pela visita do grande amor do passado, que a salvará de uma existência de solidão e vergonha. Eu esperava pelo retorno de uma mulher que nunca voltou.
Lembro o livro, o período e a dor como partes de um mesmo corpo. A prosa límpida e hipnótica de Márai ligava a vida da mulher no início do século XX à minha, que se desenrolava às vésperas do século XXI. As personagens e as palavras dele deram àquele momento as cores de uma profunda melancolia, mas a tingiram, ao mesmo tempo, de uma estranha lucidez. Lembro-me de pensar, de forma um pouco dramática, que afundava de olhos abertos.
Fui procurar ontem o livro na minha estante e descobri que não está mais lá. Sumiu, assim como o afeto inextinguível que eu sentia. Alguém levou meu livro embora, ou se esqueceu de devolvê-lo. O tempo dispôs silenciosamente da minha paixão. Diante disso, me ocorre que esquecer é uma benção – ou uma arte, a aprimorar meticulosamente ao longo da vida. Pôr pessoas e sentimentos de lado é permitir que a existência prossiga.
Não há nada que eu gostaria tanto de ensinar aos outros e a mim mesmo como a capacidade de deixar sentimentos para trás. Olho ao redor e vejo gente encalhada como barcos na areia. Homens e mulheres. Esperam pelo passado, embora a vida se espraie em possibilidades à volta delas. Precisam de tempo para se recuperar, mas carecem de luz. Necessitam entender que a dor – embora inevitável – não constitui uma virtude, nem mesmo um caminho. Tem apenas ser superada, para que o futuro aconteça.
A Eszter de Márai vive encarcerada no universo moral e jurídico legado a ela pelo século XIX. Mulher, seu destino era ligado às decisões de um homem, Lajos. Ela espera porque não tem meios de agir. Ser corrompida pela esperança e pelo perdão é o que lhe resta. Sua posição na sociedade consiste numa espécie inexorável de destino.
Não há, no mundo em que vivemos, uma jaula social correspondente aessa. Fazemos nossas escolhas no interior de amplos limites existenciais. Somos inteiramente responsáveis por nossos sentimentos, ou ao menos pelas atitudes que tomamos diante deles. Se decidimos ficar e esperar, se permitimos nos tornar o objeto passivo das manipulações ou indecisões alheias, não há um Lajos a quem acusar. Ainda assim, construímos prisões mentais à nossa volta. Prisioneiros de uma noção ridícula de amor do século XIX, quando ainda não havia liberdade pessoal, imaginamos que o amor é único e eterno – e que perdê-lo equivale a perder a vida, como um trem que passasse uma única vez numa estação deserta. Nada mais longe da realidade. Nossa vida se abre desde o início em múltiplas possibilidades e se desenvolve em companhia de inúmeras pessoas. Alguns terão papéis importantes e duradouros. Outros serão passagens breves e luminosas, como uma tarde de verão. Todos, com uma ou outra exceção monumental, veremos partir. Nós mesmos iremos embora em incontáveis ocasiões. Nos restará o desapego, como antes só restava a Eszter a resignação. Por isso, a arte de esquecer é essencial. Ela me parece a mais moderna das sabedorias sentimentais, aquela que mais permite mover-se no mundo como ele é, não como nos fizeram crer que ele seria. Nesse mundo haverá sexo, haverá paixão e, às vezes, haverá amor. É provável que haja desencontro e ruptura e que sejamos forçados a começar de novo, sozinhos. Esse é o ciclo da vida como ela se apresenta no século XXI. Nele, deixar para trás e esquecer é tão essencial quanto reconhecer e se vincular. Consiste no nosso legado sentimental. Ele começou a ser elaborado por tipos rebeldes nos anos 60 e continua a ser refeito hoje em dia. Nada tem a ver com o legado de Eszter, embora este ainda nos ensine e nos comova.
Ivan Martins, escreve ás quartas na revista Época, Brasil
Pôr os sentimentos de lado é permitir que a vida prossiga
O livro mais triste que conheço sobre o amor se chama O legado de Eszter, do húngaro Sándor Márai. Quando o li, tive a sensação de que minha vida, como a da personagem, seria destruída pela esperança de um romance irrecuperável. Eszter espera pela visita do grande amor do passado, que a salvará de uma existência de solidão e vergonha. Eu esperava pelo retorno de uma mulher que nunca voltou.
Lembro o livro, o período e a dor como partes de um mesmo corpo. A prosa límpida e hipnótica de Márai ligava a vida da mulher no início do século XX à minha, que se desenrolava às vésperas do século XXI. As personagens e as palavras dele deram àquele momento as cores de uma profunda melancolia, mas a tingiram, ao mesmo tempo, de uma estranha lucidez. Lembro-me de pensar, de forma um pouco dramática, que afundava de olhos abertos.
Fui procurar ontem o livro na minha estante e descobri que não está mais lá. Sumiu, assim como o afeto inextinguível que eu sentia. Alguém levou meu livro embora, ou se esqueceu de devolvê-lo. O tempo dispôs silenciosamente da minha paixão. Diante disso, me ocorre que esquecer é uma benção – ou uma arte, a aprimorar meticulosamente ao longo da vida. Pôr pessoas e sentimentos de lado é permitir que a existência prossiga.
Não há nada que eu gostaria tanto de ensinar aos outros e a mim mesmo como a capacidade de deixar sentimentos para trás. Olho ao redor e vejo gente encalhada como barcos na areia. Homens e mulheres. Esperam pelo passado, embora a vida se espraie em possibilidades à volta delas. Precisam de tempo para se recuperar, mas carecem de luz. Necessitam entender que a dor – embora inevitável – não constitui uma virtude, nem mesmo um caminho. Tem apenas ser superada, para que o futuro aconteça.
A Eszter de Márai vive encarcerada no universo moral e jurídico legado a ela pelo século XIX. Mulher, seu destino era ligado às decisões de um homem, Lajos. Ela espera porque não tem meios de agir. Ser corrompida pela esperança e pelo perdão é o que lhe resta. Sua posição na sociedade consiste numa espécie inexorável de destino.
Não há, no mundo em que vivemos, uma jaula social correspondente aessa. Fazemos nossas escolhas no interior de amplos limites existenciais. Somos inteiramente responsáveis por nossos sentimentos, ou ao menos pelas atitudes que tomamos diante deles. Se decidimos ficar e esperar, se permitimos nos tornar o objeto passivo das manipulações ou indecisões alheias, não há um Lajos a quem acusar. Ainda assim, construímos prisões mentais à nossa volta. Prisioneiros de uma noção ridícula de amor do século XIX, quando ainda não havia liberdade pessoal, imaginamos que o amor é único e eterno – e que perdê-lo equivale a perder a vida, como um trem que passasse uma única vez numa estação deserta. Nada mais longe da realidade. Nossa vida se abre desde o início em múltiplas possibilidades e se desenvolve em companhia de inúmeras pessoas. Alguns terão papéis importantes e duradouros. Outros serão passagens breves e luminosas, como uma tarde de verão. Todos, com uma ou outra exceção monumental, veremos partir. Nós mesmos iremos embora em incontáveis ocasiões. Nos restará o desapego, como antes só restava a Eszter a resignação. Por isso, a arte de esquecer é essencial. Ela me parece a mais moderna das sabedorias sentimentais, aquela que mais permite mover-se no mundo como ele é, não como nos fizeram crer que ele seria. Nesse mundo haverá sexo, haverá paixão e, às vezes, haverá amor. É provável que haja desencontro e ruptura e que sejamos forçados a começar de novo, sozinhos. Esse é o ciclo da vida como ela se apresenta no século XXI. Nele, deixar para trás e esquecer é tão essencial quanto reconhecer e se vincular. Consiste no nosso legado sentimental. Ele começou a ser elaborado por tipos rebeldes nos anos 60 e continua a ser refeito hoje em dia. Nada tem a ver com o legado de Eszter, embora este ainda nos ensine e nos comova.
Ivan Martins, escreve ás quartas na revista Época, Brasil
Subscrever:
Mensagens (Atom)
